Estamos a passar por enormes desafios. Os gravíssimos problemas económicos e sociais bem como a acutilante instabilidade política, são apenas sintomas de um problema mais profundo e antigo na sociedade portuguesa. Um problema que sempre acompanhou a nossa história mas que nos últimos anos se tem agravado consideravelmente. Trata-se da representatividade, ou melhor, a falta dela.

Temos uma democracia supostamente representativa. Contudo na prática não o é. Se é verdade que existe um sistema multipartidário, na prática uma enorme franja da população não se revê nessas forças políticas – basta ver o nível de abstenção ou a taxa de renovação dos quadros dos partidos. Os deputados, se bem que eleitos por círculos distritais, na prática poucos dos que os elegeram os conhecem ou acompanham as suas acções no parlamento. Pior ainda, o único momento em que os partidos se preocupam em “escutar” as pessoas é nas eleições, ficando a partir desse momento completamente blindados a quem os elegeu.

Na sociedade da informação onde as pessoas se habituaram a ter um papel activo nas decisões, o que vêem no sistema representativo é muito pouco. As pessoas não se revêem nos partidos, mas sobretudo num sistema que não está concebido para os ouvir. Por muito que se diga ou faça, com um nível de representatividade tão deteriorado todo o sistema político e governativo fica ferido de morte. Essa a semente para o desintegração social, económica e geracional.

Uma onda de indignação e revolta percorre o país. Vemos o país ir ao fundo, cravado de injustiças, de falta de transparência e a única coisa que podemos fazer é assistir impotentes a debates televisivos entre actores políticos com uma retórica gasta e argumentos vazios. Actores mais preocupados no jogo político que em debater problemas gritantes que nos assolam.

Vemos um sistema judicial que há décadas não funciona, uma educação cara e deficiente, um Estado gastador insasiavel e descontrolado, funcionários desmotivados e defraudados perante imparáveis medidas de austeridade que eles não percebem. Vemos grandes obras serem planeadas e executadas às escondidas. Entidades reguladoras que não regulam (como o evidente cartel dos combustíveis), comissões de inquérito que não chegam a conclusão nenhuma. E perguntamo-nos: o que estão a fazer estes senhores? Quem os controla? Quem nos perguntou a nossa opinião? Como é que lhes podemos dizer “Não!” ou “Basta, estamos fartos!”?

Vir para a rua é uma solução, talvez a única que encontrámos até agora. Mas acredito que há outras maneiras de ouvir os cidadãos de um país. A tecnologia hoje permite criar soluções que, no curto prazo, podem recuperar alguma dessa representatividade, confiança e transparência. É altura de fazer o empowerment das pessoas através de mecanismos de regulação directa.

Armando Vieira